Não é segredo pra ninguém que o Netflix tem acertado bastante desde que decidiu investir em conteúdo original. House of Cards, Orange is the New Black, Demolidor e Sense8 são só alguns exemplos do império que o serviço de streaming vem construindo nos últimos 4 anos. Mas de todas as séries, temos uma que merece muito mais carinho: BoJack Horseman.

Seguindo a linha de humor negro de South Park e Uma Família da Pesada e situada em um universo em que animais são humanizados, a série aposta em um humor non-sense e bastante ácido para contar a história de BoJack, um cavalo que era estrela de um programa de TV de sucesso na década de 90. 20 anos depois do fim da série ele vive uma vida regada a álcool enquanto tenta retomar sua carreira como ator.

Mesmo com uma premissa que nos dá a sensação de que já vimos isto antes, BoJack Horseman consegue ser única e mais adulta do que esperávamos.

A animação e o elenco

A começar pelo estilo de animação, BoJack é uma série bem simples. Os personagens feios contrastam bem com as cores fortes que fariam qualquer criança ficar vidrada na TV. Esta escolha de estilo é importantíssima e demonstra que o foco da série não é a técnica, e sim seu conteúdo. Assim como em South Park, não importa se os produtores utilizam o que há de melhor tecnicamente para animações e sim seu roteiro, piadas e senso crítico contidos ali. Apesar de uma temática que poderia render boas histórias se feita em live-action, esta série não funcionaria assim, pois depende muito de seu universo, que facilita bastante a criação de piadas e situações impossíveis de acontecer no mundo real.

bojack-personagens

Os protagonistas Diane, Todd, BoJack, Princesa Carolyn e Mr. Peanutbutter

O fato de BoJack Horseman ser uma animação não impede que ela tenha um elenco de primeira com Will Arnett (BoJack), Alison Brie (Diane) e Aaron Paul (Todd) como protagonistas. Ainda é válido considerar as participações recorrentes de atores renomados como Lisa Kudrow, J.K. Simmons e Olivia Wilde. Além de Daniel Radcliffe, Naomi Watts, Stanley Tucci, Amy Schumer e ninguém menos que Sir Paul McCartney, mesmo que por poucos segundos.

Will Arnett dá vida a um BoJack melancólico, sarcástico e sempre revoltado com a vida, enquanto Alison Brie cria uma Diane que funciona um complemento de sua Annie em Community (os dois já haviam trabalhado juntos com dublagem em Uma Aventura LEGO). Diane fala baixo, é pragmática e muito eficiente no que faz. O Todd criado por Aaron Paul é ingênuo e totalmente sem rumo na vida, assim como Mr. Peanutbutter.

Aqui os atores criam personagens com profundidade, não apenas os dublam com vozes caricatas ou estereotipadas, como acontece em outras animações. Não há problema nenhum em criar vozes desta maneira, mas aqui não funcionaria, pois ficaria difícil passar credibilidade para o drama que a série se propõe a fazer. De maneira muito eficiente, diga-se de passagem.

Do que BoJack é feito?

Depois de uma primeira temporada boa, mas não muito acima da média, BoJack Horseman começa a segunda temporada com o pé na porta. Mostrando a infância de BoJack em uma cena densa em que ele, criança, acompanha uma briga dos pais, o tom da temporada é criado logo ali e ele não é leve. Mas gostaria de descrever os extremos da série usando dois episódios.

Em “Galinhas” (quinto episódio da segunda temporada), temos: uma encenação da clássica piada “porque a galinha atravessou a rua?”, uma sátira a filmes de policiais e críticas sociais em relação à criação de animais para abate (afinal, ninguém conhece uma galinha como outra galinha). De quebra, a história principal da temporada avança e BoJack amadurece um pouco como pessoa cavalo. Este episódio demonstra a eficiência da série em mesclar vários tipos de humor diferentes com críticas sociais e sem perder o fio da meada da história principal, algo bastante difícil de fazer.

BoJack em sua visita ao Brasil na década de 90.

Já em “O Lado Escuro de Hank” (sétimo episódio da segunda temporada) temos uma referência clara ao caso de Bill Cosby (resumo: ele drogava mulheres para estuprá-las). É um episódio sombrio com pouquíssimas piadas e um viés feminista, focado inteiramente em criticar o lado machista e hipócrita de Hollywood que tem tendência a defender seus ídolos. Mesmo que 36 pessoas o acusem de um crime e que ele confesse o crime. Aqui a protagonista é Diane e temos é um episódio que deixa um gosto amargo ao final.

Estes dois episódios são alguns dos melhores da série, e demonstram perfeitamente como os produtores conseguem equilibrar os elementos da série perfeitamente. Se todos os episódios fossem como “Galinhas”, o drama se perderia nas piadas, mas se fosse como “O Lado Escuro de Hank”, seria pesada demais para ser considerada uma comédia.

Este equilíbrio é essencial dentro dos episódios, tornando a série ousada e fácil de assistir mesmo com uma carga dramática relativamente pesada. É aí que ela se diferencia de outras animações de humor negro da TV: a trama principal precisa caminhar a cada episódio sem deixar a peteca cair. Para isto, os roteiristas encontraram uma fórmula, que em que cada episódio alguns personagens servem de alívio cômico enquanto outros se desenvolvem. Assim nenhum personagem fica de fora da história e todos são importantes. Durante a segunda temporada personagens que eram coadjuvantes como Princesa Carolyn e Todd ganharam mais importância e cresceram com suas próprias histórias, trazendo mais importância e seriedade à série.

A autossabotagem de BoJack, os dilemas morais de Diane e seus problemas com o casamento, a ingenuidade que impede Todd de crescer na vida são apenas alguns dos dramas que a série discute e que fazem com que o público se identifique muito mais com os personagens. Em Uma Família da Pesada é difícil criar esta identificação com o público por ser uma série puramente de comédia, com situações absurdas e estereótipos em todo lugar. Aqui, temos situações reais colocadas em um universo totalmente absurdo e isto funciona.

Depois de uma primeira temporada irregular, a série se encontrou na segunda e agora parece saber o que é e onde quer chegar. Por isso, tem merecido indicações a prêmios de roteiro com os grandes, e disputar prêmios de animação de igual pra igual com gigantes como Simpsons ou Uma Família da Pesada, mesmo não tendo o mesmo apelo popular.

Que BoJack continue crescendo sem perder a qualidade que demonstrou nesta segunda temporada. Precisamos de mais animações assim, que tá pouco.

 

Em breve

Outros lançamentos

Parceiros