“You cannot win an Emmy for roles that are simply not there.”

Foi assim, no dia 20 de setembro de 2015, que Viola Davis finalmente expôs ao mundo uma dor que é compartilhada não somente por ela e suas talentosas colegas de trabalho na televisão americana – mas também por várias mulheres negras ao redor do mundo. Para você que não acompanha o que acontece na televisão americana (e muito menos as premiações relacionadas com essa parte do entretenimento) eu explico: Viola Davis havia acabado de se tornar a primeira mulher negra a ganhar um Emmy de melhor atriz em uma série dramática, em pleno ano de 2015. Mulheres negras só haviam ganhado Emmys por suas interpretações em séries de comédia ou por papeis secundários. Essa seria uma situação normal e de muitos motivos para celebrar, se não parássemos para pensar na data em que isso aconteceu. Ver que uma mulher negra só conseguiu ser reconhecida por seu talento em pleno século XXI, mostra o enorme abismo e a injustiça que ela – e muitas outras atrizes – vem sofrendo desde o crescimento da indústria do entretenimento na televisão, que vem apresentando franca expansão desde o início da década de 90.

O Emmy de Viola, portanto, ao avaliarmos de maneira simples a situação descrita acima, ganha um valor muito maior do que somente premiar o talento da atriz que carrega nas costas uma das séries de maior audiência da televisão americana – e é exatamente sobre isso que vamos falar nesse artigo.

Viola Davis em ação em HTGAWM

Viola Davis em ação em HTGAWM

Quem é Viola Davis

É impossível começar a falar da importância desse prêmio para a industria do entretenimento mundial, sem ao menos explicar quem é Viola Davis. Para muitos, a atriz que venceu o Emmy esse ano é somente mais uma desconhecida que, finalmente, vai começar a mostrar seu talento para o resto do mundo. Mas a história de Davis não é tão simples assim.

Viola Davis é, provavelmente, uma das atrizes negras mais importantes e influentes do entretenimento americano. Apesar de ser pouco conhecida no Brasil, Viola é uma atriz muito valorizada no país onde nasceu. Antes de iniciar a carreira no cinema e na TV, Viola ganhou vários prêmios por suas interpretações teatrais na Brodaway – inclusive dois Tonys por melhor atriz em uma peça, o mais importante da categoria. O destaque nos palcos permitiu que, em 2008, Viola ganhasse um papel importante no filme “A Dúvida”, onde pela primeira vez dividiu suas cenas com atores de renome como Meryl Streep e Phillip Seymour Hoffman – mesmo que essa oportunidade resultasse em somente uma cena em toda a duração do filme. Seu talento, exposto nessa única cena, garantiu à atriz suas primeiras nomeações a prêmios como o Globo de Ouro, o SAG Awards e o Oscar de melhor atriz coadjuvante. Vale ressaltar aqui que, mesmo com todos os elogios, Viola voltou de mãos abanando em todas as oportunidades.

Amy, Merly e Viola: parte do elenco de "A Dúvida"

Amy, Merly e Viola: parte do elenco de “A Dúvida”

Em 2011 Viola novamente voltou a marcar a industria do entretenimento com um dos papeis mais importantes de sua carreira. Sua interpretação como Aibileen Clark, no belíssimo filme Histórias Cruzadas, permitiu que ela novamente fosse nomeada aos maiores prêmios do cinema mundial, porém levando para casa somente o SAG Awards por melhor atriz. Apesar disso, na premiação do Oscar, quando perdeu a estatueta para ninguém menos que Meryl Streep, a multipremiada atriz fez questão de ressaltar, em seu discurso de agradecimento, que Viola era tão talentosa que merecia muito mais chances no mercado do cinema americano, do que realmente era oferecido a ela. Meryl já mostrava ai que existia uma diferença clara de oportunidades oferecidas para ela e para sua colega de trabalho.

Viola voltou a ganhar destaque, depois de perder o Oscar para Merly, como atriz principal na série de sucesso How To Get Away With Murder. 2014 foi o primeiro ano da série e, finalmente, garantiu para a atriz seu primeiro Emmy.

O preconceito racial escancarado da mídia americana

Depois de conhecer a história de Viola Davis, fica fácil perceber como seu Emmy é muito mais do que apenas a celebração de uma carreira de sucesso – mas sim que ele é um exemplo de que as chances são realmente diferentes para ela e outras atrizes que, com muito menos tempo de carreira, conquistaram seus primeiros prêmios importantes na história da TV americana.

Apesar de ser considerada uma das pessoas mais influentes do mundo pela revista Time em 2012 – e por já poder ser classificada como uma atriz de sucesso – a vitória de Davis serviu para simbolizar uma conquista que vai além de seu orgulho pessoal ao ser cororada como melhor atriz de drama. Como a própria Viola fez questão de ressaltar, o seu primeiro prêmio era apenas um passo na batalha pela igualdade de oportunidade entre os negros e brancos, não somente na televisão, mas diversas situações em que eles ainda sofrem com o preconceito racial – que nos Estados Unidos, chega a não ser nada velado.

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Viola em cena de “Histórias Cruzadas”

Viola citou, em seu discurso, Harriet Tubman, um símbolo da batalha contra o preconceito racial e de gênero nos Estados Unidos. A fala da atriz, que emocionou presentes como Kerry Washington e Taraji P. Henson (que também concorria ao prêmio), deixou visivelmente desconfortável suas concorrentes brancas (como Robin Wright e Claire Danes), que mesmo assim aplaudiram a coragem da atriz de criticar abertamente roteiristas, produtores e empresários das diferentes redes televisivas do país.

‘In my mind, I see a line. And over that line, I see green fields and lovely flowers and beautiful white women with their arms stretched out to me, over that line. But I can’t seem to get there no how. I can’t seem to get over that line.’

O feminismo que ainda não abraçou a causa racial

Vale reforçar que o discurso de Viola vai muito além da discussão do preconceito racial que é claro e explicitado não somente na televisão americana, mas também ainda no cinema e teatro. Viola também aproveitou para reforçar que a luta pela igualdade de gêneros também ainda não é favorável para as mulheres da raça negra, que são frequentemente ignoradas por batalhas feministas não somente no meio audiovisual, mas em várias outras situações. Viola citou questões como mortalidade, violência, índices de aborto e até mesmo os empregos mais populares entre essas mulheres, para justificar sua argumentação de que a batalha para elas ainda está muito longe de ser vencida. Ali, Viola deixou claro que ela não queria ter conquistado o papel de esposa do presidente dos Estados Unidos em House of Cards, ou de investigadora em Homeland – e nem mesmo que as atrizes brancas não mereciam esses papeis. Davis só deixou claro que a oportunidade de poder concorrer a esses papeis já seria uma maneira de mudar a situação de mulheres como ela, não somente na indústria audiovisual, mas também em diferentes situações em todo o mundo.

Por esse motivo, Davis aproveitou o momento para agradecer os roteiristas e produtores (assim como outros empregadores) que tem aberto as portas para que as mulheres negras mostrassem seu talento – e aqui Shonda Rhimes tem um papel importantíssimo nessa conquista. Foi ela a primeira roteirista a colocar atrizes negras em papeis principais de série de destaque no Prime Time americano: Kerry Washington em Scandal e Viola Davis em How To Get Away With Murder. Hoje, as duas séries dominam as quintas-feiras a noite do canal ABC – um dos mais populares e tradicionais do país.

O discurso que ainda incomoda os privilegiados

O discurso de Viola, entretanto, apesar de ter sido elogiado por grande parte dos críticos e de seus colegas de trabalho, não passou longe de despertar a ira da “ala branca” do entretenimento americano. A atriz Nancy Lee Grahn, por exemplo, deixou clara sua insatisfação ao ver que Davis aproveitou o momento de uma premiação para falar de batalhas pessoais e políticas.

Nancy Lee Grahm se incomodou com o discurso de Viola

Nancy Lee Grahm se incomodou com o discurso de Viola

Apesar de ter se retratado após fazer comentários duros e desnecessários à vitória de Viola, a atitude de Nancy mostra que, mesmo com as portas se abrindo, o caminho ainda é longo para que possamos ver as mulheres negras atravessando o campo de flores e grama que as separam das talentosas atrizes brancas – e de seus respectivos papeis de sucesso.

Para concluir esse artigo, eu gostaria de pedir a você que tirasse uma hora do seu dia para poder assistir How To Get Away With Murder. Afirmo isso não porque Viola está espetacular no papel principal (na minha opinião pessoal, inclusive, sua interpretação é tão boa quanto a de Robin Wright ou de Claire Danes em suas respectivas séries), mas sim pela importância que esse pequeno ato pode ter para essa conquista histórica. Assista HTGAWM nem que seja para começar a incentivar que outras mulheres talentosas como Viola, tenham cada vez mais espaço nas telas do cinema ou da TV.

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