Você já viu isso antes: alguém, pertencente a uma minoria, sofre preconceitos ao tentar morar em um lugar dividido pelo racismo e pela xenofobia e assim é obrigado a ir morar na rua, onde descobre o submundo cruel das cidades. Em Deus Branco (White God, 2014), aclamado longa do húngaro Kornél Mundruczó, a história é exatamente essa, porém, com um pequeno detalhe: o “alguém” é um simpático vira-lata chamado Hagen.

Lili e seu companheiro Hagen

Brevemente inspirado no romance Desonra – que Mundruczó levou para os teatros em 2012 -, do sul-africano J. M. Coetzee, o roteiro do longa narra acompanha um momento na vida da jovem Lili (Zsófia Psotta), uma estudante que é obrigada a passar alguns meses com seu devoto cão na companhia de Dániel (Sándor Zsótér), seu ausente pai. Preso em uma posição muito frágil com a filha e pressionado por uma vizinha que obriga o sujeito a colocar Hagen na rua, Dániel abandona o simpático animal próximo a uma movimentada avenida de Budapeste enquanto tenta retomar o controle da situação com a rebenta.

Completamente filmado nas ruas da capital da Hungria, White God passa longe de ser um daqueles filmes de cachorro da Sessão da Tarde. Recheado de cenas chocantes – o treinamento que o protagonista de quatro patas recebe para se tornar um vencedor em uma rinha de cães é extremamente brutal – o longa não poupa esforços e estômagos para mostrar a realidade que alguns habitantes tido como “indesejados” por uma pequena parte da população recebem de uma parte abusiva da sociedade. Vide a situação não apenas dos animais, mas principalmente dos ciganos e judeus do Leste Europeu que lidam hoje em dia com uma espécie de apartheid institucionalizado por aquelas bandas.

Divido em três atos com pegadas diferentes entre si – o primeiro é mais calmo e leve, enquanto o segundo é mais dramático e o último poderia ser considerado uma mistura de Os Pássaros com Cujo White God é um belo trabalho de edição e direção. Com um ritmo bastante eficiente, o longa chamou uma boa parte da atenção em Cannes por conta de suas cenas de ação envolvendo mais de 300 cães de rua. Totalmente filmadas sem ajuda de computação gráfica, estas cenas (que abrem, fecham e fazem parte do pôster do filme) emanam uma realidade impossível de ser mostrada em tela mesmo com a tecnologia que temos hoje no cinema. Não por acaso as reações de pânico dos figurantes são tão reais e assustadoras.

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Ganhador do prêmio Un Certain Regard no festival de Cannes, White God é um melancólico e violento retrato do lado menos glamoroso da Europa que, além de renovar o estilo filme-de-cachorro, aparece – juntamente com Mad Max: Estrada da Fúria – como uma das provas de que o cinema precisa de mais coragem e menos computação. E talvez este seja o começo de uma nova revolução.

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