Imigrante francesa e dona de uma beleza bem destacada, a jovem Mima Renard desembarcou com seu marido em São Paulo no final do século XVII em busca de uma vida tranquila e sossegada do lado de cá do oceano. No entanto, o que esse casal acabou encontrando não foi nada de bom.

Depois de perder o marido, assassinado por um suposto interessado na moça, Renard precisou se prostituir para conseguir pagar suas contas e continuar vivendo no Brasil. Fato que levou muitos homens a desejarem ainda mais essa mulher, que chegou até mesmo a ver um de seus clientes esfaquear o outro até a morte bem na sua frente por ciúmes.

Agora, se você acha que essa história não pode piorar mais, saiba que, sim, ela piora.

Depois desse incidente com os seus clientes, a francesa acabou julgada e condenada à fogueira por um grupo de mulheres que dizia que tudo aquilo só aconteceu por causa de um feitiço que Renard havia lançado nos homens daquela região. E como naquela época estava na moda jogar os acusados de bruxaria no fogo, nada poderia ser melhor para o nosso país do que acompanhar as tendências do primeiro mundo.

Agora, mais de três séculos depois, é hora do tema bruxaria voltar a figurar nas rodas de conversa. Mas dessa vez, por causa de A Bruxa, uma produção do estreante Robert Eggers, responsável por sacudir o festival de Sundance no começo do ano passado e trazer de volta para os cinemas aquele bom e velho espírito dos filmes de terror da década de 70.

Baseado em alguns relatos de moradores que viveram na região da Nova Inglaterra no período de 1600, A Bruxa acompanha a vida de uma família que é banida de uma comunidade extremamente religiosa e passa a viver no campo, próxima a uma gigantesca floresta. Um lugar onde mais tarde eles descobrirão que serve de abrigo para uma perigosa bruxa que irá sequestrar seu bebê recém-nascido e tocar o terror em suas vidas.

Terror sem sustos

Sem querer provocar qualquer tipo de dúvida no espectador, Eggers deixa bem claro já nos minutos inicias de projeção que, sim, existe mesmo uma bruxa vivendo na floresta e, sim, ela tem contato direto com algum tipo de entidade. E essa clareza é o que segura muito bem os pouco mais de 90 minutos de duração do filme.

Evitando qualquer tipo de susto mais fácil – daqueles que costumeiramente vem acompanhados de algum barulho ensurdecedor -, A Bruxa é um terror à moda antiga, que antes de deixar a audiência bolada (e muito!), passa uma boa parte do tempo preparando o seu terreno. Algo que só funciona graças a essa confiança que o diretor estabeleceu lá atrás, de que não estamos sendo enganados por alguma jogada espertinha de roteiro.

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Porém, é bom deixar claro que essa preparação pode afastar uma boa parte da audiência do cinema, já que aqueles em busca de algum episódio de Atividade Paranormal ou Jogos Mortais podem não aceitar facilmente a pegada do diretor – que também assina o roteiro do filme. Mas, na real? Quem liga para sustos fáceis quando temos um verdadeiro show de interpretações, de direção e de fotografia em cena?

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Buscando apresentar de forma bastante realista aquele período do século XVII, Eggers optou por filmar boa parte de A Bruxa sem auxílio de luz artificial, dando bastante destaque para as texturas dos cenários, da floresta e também usando uma razão de aspecto de 4:3 onde a proximidade dos personagens é priorizada para aumentar a dramaticidade das cenas.

“Você tem que usar apenas luz natural se quiser realmente mostrar como o mundo se parece” – Robert Eggers

Dramaticidade essa que é potencializada com as excelentes interpretações do elenco, com destaque para a do patriarca William (Ralph Ineson), a da jovem Anya Taylor-Joy, que vive com maestria a protagonista Thomasin – aliás, não seria de estranhar se ela entrasse na disputa por alguns prêmios ao longo do ano -, e a do estreante Harvey Scrimshaw que interpreta o jovem Caleb, o filho do meio da família, responsável por uma das cenas mais impactantes do longa.

Por fim temos que falar novamente da boa condução que o diretor dá ao filme, entregando doses homeopáticas de horror – e até fantasia – e sabendo o que deve ser mostrado ou não em cena. Uma decisão que, no último ato do longa, faz com que A Bruxa realmente se torne aquilo que a audiência tanto esperou.

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Com uma pegada mais próxima de filmes como As Bruxas de Salém ou O Sexto Sentido, A Bruxa é uma excelente mistura de drama de época com terror que, assim como aconteceu com Babadook, pode ser prejudicado por um marketing errado, disposto a vender a produção como uma máquina de sustos. Por isso, antes de conferir essa beleza nos cinemas, é melhor reconfigurar as suas expectativas e lembrar que, apesar do que é visto em cena, as bruxas de verdade nunca foram as vilãs da história.

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