Todo grande fã de Rock n’ Roll sabe qual é a real importância dos Rolling Stones na história da música. Você pode até não simpatizar com as caretas e espasmos de Mick Jagger no palco, não se impressionar com a força da saúde de Keith Richards, não invejar o espírito jovem de Ron Wood ou simplesmente não se apaixonar pela timidez de Charlie Watts. O que é impossível negar, entretanto, é que mesmo que você não quisesse estar no Morumbi naquela noite de sábado, dia 27 de fevereiro de 2016, era possível que boa parte da cidade de São Paulo (e muitas pessoas espalhadas pelo Brasil que fugiram para capital paulista) estavam tendo a oportunidade de vivenciar uma das apresentações musicais mais importantes que a cidade já recebeu.

São Paulo não é uma estreante nas turnês do quarteto inglês (o grupo já se apresentou por aqui em 1998), mas acredito que poucas apresentações musicais nos últimos anos – desde que a capital se tornou destino certo de praticamente todas as grandes turnês de rock e pop no mundo – era tão esperada quanto essa de 2016. O namoro dos Rolling Stones com Sampa tem levantado rumores da vinda do quarteto desde 2013, e tomou força depois que Sir Paul McCartney retornou à capital para o terceiro show em menos de cinco anos. Por isso a confirmação da passagem da “Olé Tour” por aqui movimentou toda a população local (e de várias partes do Brasil) a garantir o seu ingresso para esse momento único. Essa, inclusive, muitas pessoas acreditam que possa ser a última turnê do grupo, o que deixou cada momento desse encontro com um sabor ainda mais especial.

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Mick: 72 anos em um corpinho (e espírito) de 21. Imagem: Globo.com

Apesar da grande expectativa para o reencontro, a produtora Tickets 4 Fun parece ter começado a sua sucessão de falhas na segunda (e completamente esgotada) apresentação dos britânicos na capital paulista bem cedo. Só a escolha do Morumbi como palco do evento, ignorando por completo o recém inagurado Allianz Parque – a opção mais adequada para suportar o volume de pessoas de maneira confortável e segura durante o show – já era um grande sinal do grande problema que a organizadora iria enfrentar naquele sábado. A região do Morumbi, como era de se esperar, enfrentou trânsitos intermináveis, ambulantes e fãs comprimidos em ruas minúsculas, e longas filas para poder entrar em qualquer setor do estádio. Lá dentro, bares e banheiros lotados, cerveja quente e uma infraestrutura pequena e despreparada para atender o público. Nada disso, entretanto, parecia desanimar o grande volume de pessoas que estava lá para ver a lenda britânica do Rock. De qualquer maneira, depois da apresentação o público teve que enfrentar o descaso impressionante da produtora em conferir segurança para a saída de todos do estádio. Tumultos, empurra empurra, pânico e muito calor marcaram a despedida do público a um dos shows mais esperados da década na capital.

Deixando os problemas de lado, afinal não é para falar deles que estou aqui, durante as quase duas horas e meia de show, tudo pareceu correr bem. No palco, pontualmente as 21h (exatamente uma hora depois da apresentação de abertura dos Titãs), Mick e sua trupe subiram ao palco para levar todo o estádio Morumbi, coberto por mais de 60.000 pessoas, à loucura. Nos primeiros acordes de “Jumping Jack Flash” muitas pessoas ainda pareciam não acreditar que estavam em frente a uma das bandas mais importantes da história da música ainda em atividade. Sim, eram eles. Eram finalmente os Rolling Stones.

Apesar de emendarem três importantíssimos clássicos logo nos primeiros minutos de show (depois de “Jumping” ouvimos “It’s Only Rock and Roll”  e “Tumbling Dice”), algo parecia errado – pelo menos na vibe que a pista passava para boa parte de quem estava lá para assistir a apresentação. Cansei de ver muitas pessoas mais preocupadas em filmar, fotografar ou simplesmente adquirir sua cerveja com o copo da língua, ao invés de realmente curtir aquele momento único que estávamos vivendo. Esse clima apático (que parece ter persistido somente na pista e não nas arquibancadas ou pista premium), mesmo com todo o vigor de Mick Jagger no palco – e a apresentação de belas canções como “She’s a Rainbow” (escolhida pelo público) e “Wild Horses”, foi sustentado até a chegada do momento solo de Keith no palco. Reforço que a apatia jamais deve ser entendida como culpa dos monstros que estavam em palco: Mick já estava mostrando por que é considerado um dos grandes showmans da história do Rock, Keith parecia ter os dedos mais afiados do que nunca, e Ron Wood e Charlie Watts complementavam bem o trabalho da dupla de inimigos que entendeu que trabalhar em conjunto era melhor do que encerrar o melhor projeto de suas vidas.

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Clássicos foram o foco do setlist impecável da banda. Imagem: Globo.com

Quando Mick volta ao palco para dar sequência a apresentação do grupo por completo, felizmente, um clima novo parece ter se instalado no ambiente. A segunda parte do show – que se iniciou com mais um clássico, “Midnight Rambler” – parecia ter uma dedicação e entrega ainda maior do quarteto no palco. Com uma energia completamente diferente, a sensação que eu e grande parte do público tivemos com a sequência de clássicos como “Miss You”, “Start Me Up”, “Sympathy for the Devil” e “Brown Sugar” é de que os Rolling Stones se tornavam a cada música melhores. Era possível captar no ar que aquela etapa tinha se transformado em um show completamente diferente do que tínhamos vivenciado apenas alguns minutos mais cedo. Pode até ser um pouco por ciúme do carinho do público por Keith (estou somente divagando sobre essa possibilidade, ok?), mas Mick voltou como um monstro ao palco, dançando como um jovem de 18 anos e deixando no chão até mesmo suas garotas do backing vocal com falsetes jamais alcançados por elas na impressionante apresentação de “Gimme Shelter”. Naquele momento eu tive certeza: estava finalmente em frente de uma das maiores bandas do mundo.

Para fechar com chave de ouro um set list impecável, “You Can’t Always Get What You Want” (com a participação do coral de São Paulo) e “Satisfaction” mostraram para aqueles 60.000 fãs que lotaram o Morumbi em uma noite nublada da capital paulista, que o peso dos mais de 70 anos dos integrantes do quarteto parece não ser um fardo para nenhum deles. Fica até difícil acreditar que a aposentadoria do grupo está a cada turnê mais próxima.

Apesar de ser um show que dificilmente chega ao top 5 das apresentações que já vi no Brasil (e credito essa queda no meu ranking pessoal ao público que não entregou ao quarteto aquela energia que eles mereciam), os Rolling Stones deixaram claro que ser uma banda de sucesso é muito mais do apenas ser capaz de ter um nome que carrega multidões de fãs para qualquer canto do mundo. É preciso amar aquilo que faz. E somente esse amor justifica os mais de 50 anos subindo em um palco para fazer o que sempre fizeram: sucesso.

Voltem sempre rapazes. Prometemos que da próxima vez São Paulo se comportará melhor!

Abaixo a imagem do set list da noite:

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