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Sim. O documentário é feito de pessoas.

O cotidiano.

Não consigo nunca esquecer aquela obra de gênio criada no século passado, o filme que foi o começo de tudo – L’Arrivée d’un Train em Gare de La Ciotat. Esse filme, feito por Auguste Lumière, foi simplesmente o resultado da invenção da câmera, da película e do projetor.

O espetáculo, que só dura meio minuto, mostra um trecho da plataforma ferroviária banhada pela luz do sol, damas e cavalheiros caminhando por ali, e o trem que surge do fundo do quadro e avança em direção à câmera. À medida que o trem se aproximava, instaurava-se o pânico na sala de projeção, e as pessoas saíam correndo. Foi neste momento que nasceu o cinema, e não se tratava apenas de uma questão de técnica ou de uma nova maneira de reproduzir o mundo. Surgira, na verdade, um novo princípio estético.

Sim. O documentário é feito de pessoas.

L’Arrivée d’un Train causando alvoroço no inicio do cinema

Pela primeira vez na história das artes, na história da cultura, o homem descobria um modo de registrar uma impressão de tempo, genialmente descrita por Andrei Tarkovski na obra Esculpir o Tempo. Um século depois, esta mesma impressão é feita com celulares. É o cotidiano, é a novidade em nossas retinas. Desta vez, fora da tela escura, mas, com outro grau de imersão. Todos os dias, na web inúmeros registros são compartilhados. E o que será isso? Documentário? Aliás, o que é este tal de documentário? E porque comemoramos esta data? E porque dia 7 de agosto? Vamos voltar em um tempo obscuro e porque não em uma Manhã Cinzenta onde um grupo de jovens resolveu sequestrar um avião e fazer um belo plano sequência até Havana. Um dos filmes exibidos no avião foi dirigido por Olney São Paulo e como vivíamos em tempos de estupidez humana, ele foi dado como subversivo e foi o único cineasta, que durante ditadura, foi preso e torturado. Logo, este dia é em homenagem a Olney. Calma. Ele não morreu neste dia, só apareceu semanas depois, com pneumonia e foi internado. Ele morreu anos depois por problemas no pulmão (talvez cigarros ou acetato). Olney foi homenageado e sete de agosto é seu aniversário.

Textura e cor.

Lembro-me de Leocádio um de tantos personagens de Coutinho ao olhar para a câmera coloca a mão no rosto de vergonha. Junto a Leocádio, temos Jandira, Valdete e Judite. Avôs, mães, filhas e netas que perderam suas casas. Uma foi em Goiânia em Sonho Real corajosamente retratada pelos companheiros do CMI e pelo saudoso Brad Will. A outra há pouco tempo, com a mesma borrachada, Pinheirinhos. Olney São Paulo foi um dos primeiros a comprar uma câmera portátil e foi desbravar o sertão baiano capturando o calor e a palavra daqueles que ainda acreditavam em coronéis. Só que os de lá, naquele tempo, só apontavam o voto. Os daqui, o pau de arara. Percebemos aqui que o documentário é algo provocador, algo que questiona, instiga. O documentário é antes de tudo, também feito de pessoas.

Ora pois.

Mas ainda não respondi o que é este tal de documentário, ora, pois, é algo pertinente que há pouco tempo é considerado um gênero porque muitos acreditaram que as imagens em movimento deveriam ser só pela ficção, construção de histórias, adaptações e etc. Ao contrário da ficção o documentário estabelece asserções ou proposições sobre o mundo histórico. São duas tradições narrativas distintas, embora muitas vezes se misturem. O fato de autores singulares explicitamente romperem os limites da ficção e do documentário não significa que não possamos distingui-los. Por ter um caráter afirmativo ele trabalha dialogicamente, ou seja, existe a presença do testemunho que considero um campo fértil, uma janela para a população, para os trabalhadores (em uma análise mais aprofundada) ter um canal para divulgar, compartilhar e falar sobre algo.

Amém.

O documentário tem um caráter mobilizador e crítico uma vez que abre um campo para estes personagens. Neste momento a locução passa a ser do personagem e não a voz off como se fosse Deus dizendo algo. Nem todas as narrações querem dizer isso, mas a partir dos anos 60 começaram a explorar os diálogos, os gritos e os olhares.

Neste dia, lembramos dos documentários feitos de pessoas. Personagens que agora não são reféns de algum recorte específico das políticas editoriais dos horários nobres. Desta vez não falaremos de leões africanos, de aquecimento global ou de alguma expedição na Antártida. Falemos de tempos daqueles que constroem as imagens e recortam (ou recontam), que não estão na moviola ou na ilha de edição. Estão produzindo seus planos sequência enquanto a bateria sobrevive, a borracha não queima ou sua conexão não cai.

O documentário é o registro do cotidiano. Nosso cotidiano. Nossos olhos. Nossa dor.

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