“Crítico é sempre do contra”, “gosto é igual bunda”, “tudo é só uma questão de opinião”. Sempre que a visão da crítica especializada a respeito de algum filme (ou livro, série, e até disco) bate contra a de alguns fãs, vemos esses argumentos viralisando mais que Pokémon GO por aí. Uma espécie de confronto que não tem nada de novo, mas que com a popularização da web tem se tornado cada vez mais recorrente e impactante, como rolou no caso da petição que alguns fanboys da DC arrumaram para tentar tirar o Rotten Tomatoes e o Metacritic do ar por causa da avalanche de críticas negativas feitas para Esquadrão Suicida, atual besteira produzida com o selo Warner/DC.

Agora, será que esses anti-críticos tem razão? Será que a crítica especializada, seja ela qual for, é apenas uma ideia ~elitizada~ que tenta gourmetizar o que não precisa ser gourmetizado? Claro que não! No entanto, assim como em uma boa crítica não basta apenas dizer “claro que não” – ou “gostei” ou “não gostei” -, é preciso que eu explique o meu ponto de vista para que ele faça sentido, certo? Então vamos partir do começo.

Crítica não tem nada a ver com gosto pessoal

Aqueles filmes que a gente ama, mesmo sabendo que, sim, são ruins

Aqueles filmes que a gente ama, mesmo sabendo que, sim, são ruins

Primeiramente Fora Temer! temos que entender o seguinte: uma boa crítica não tem a ver com gosto pessoal. E vou dar um exemplo para simplificar as coisas: eu adoro Um Drink no Inferno. Simplesmente amo aquela porcaria. Porém, se eu fizesse uma crítica para o filme, ela viria recheada de pontos que mostram como aquela produção é bem da mais ou menos (no máximo um 6 em 10, que, aliás, é a nota dela no Rotten Tomatoes).

Percebeu como a nota que eu daria em uma crítica é bem diferente da “nota” do meu gosto pessoal?

Então, isso acontece porque a crítica não se baseia apenas em sentimentos a respeito de algo – gostar ou não. Ela tem a ver com o que aquilo que nos leva a sentir alguma coisa a respeito de um filme, uma música, uma atuação. É como se desconstruíssemos algo para entender como aquilo funciona.

Saca só: muitas pessoas quando assistiram Tubarão pela primeira vez tiveram medo ou um certo desconforto com as sequências onde o bicho atacava suas vítimas. Com isso em mente, se você quiser passar sua impressão pessoal a respeito do filme para alguém basta dizer: “dá mó medão” ou “é tenso, cara”. Agora, se quiser fazer uma crítica um pouco maior sobre a produção do tio Spielberg, vale dizer “como ninguém vê o tubarão em cena durante boa parte da projeção, você não sabe de onde ele vem e nem como ele é, o que acaba dando mais medo que se víssemos o peixão, sabe”?

Percebeu a diferença? Na impressão pessoal só um “dá medo” ou “é tenso” já vale. No caso da crítica é preciso ir um pouco mais fundo no argumento. E aí, meu caro, quando você começa a entender porque algo funciona ou não, acredite, você começa a gostar mais do cinema como um todo. Inclusive daqueles longas que vão muito mal nas bilheterias.

Bilheteria não faz o filme ser bom ou ruim

"Até que a Sorte nos Separe" e sua bilheteria maior que "Clube da Luta" e "Donnie Darko"... juntos

“Até que a Sorte nos Separe” e sua bilheteria maior que “Clube da Luta” e “Donnie Darko”… juntos

Batman vs Superman fez mais de 800 milhões de dólares de bilheteria”, “Transformers fatura mais que filme iraniano”, “Esquadrão suicida, que todo mundo falou mal, tá lavando a égua de tanto fazer grana”. Cara, é o seguinte: se o seu argumento para dizer se um filme é bom ou não for a bilheteria dele, o que eu tenho a te dizer é: seja menas.

  • 1º motivo para você ser menas: Grandes produções – que provavelmente você paga pau – já floparam na bilheteria. E nessa lista temos: Donnie Darko (custou 6 milhões e arrecadou menos de 2 milhões), Clube da Luta (custou 63 e arrecadou pouco mais de 37 milhões), Um sonho de Liberdade (custou 25 milhas e arrecadou 16) e até Scott Pilgrim (custou 60 e fez 47 nas bilheterias).
  • 2º motivo para você ser menas: Bilheteria tem a ver com época de lançamento nos cinemas, investimento em marketing, número de salas em exibição, apelo do filme com o público e outros pontos que nada tem a ver com a qualidade técnica.
  • 3º motivo para você ser menas: No Brasil a Skol é a cerveja mais vendida, Domingão do Faustão é um dos programas mais lembrados em pesquisas e Até que a Sorte nos Separe fez mais sucesso nos cinemas que todos os filmes listados no primeiro motivo (34 milhões).

A opinião do público em geral não tem o mesmo peso da opinião da crítica – aceita que dói menos

A nota média do IMDB tem pouca coisa de média

A nota média do IMDB tem pouca coisa de média

Outro dia numa discussão no Facebook (onde mais seria?) vi um sujeito dizendo que no IMDB a nota para Esquadrão Suicida era de 7.1 em 10 e isso mostra como o povo entende mais de cinema do que os críticos.

Bem, o que eu tenho a dizer é que não, não entende não. E não é porque os críticos são seres mágicos, dotados de todo o conhecimento do mundo. É porque a opinião do público em geral de geral mesmo não tem nada e por isso não deve ter o mesmo peso.

Eu explico: se você CLICAR na nota média de Esquadrão Suicida no IMDB – algo que quase ninguém faz – verá que o sistema separa essa média até mesmo por idade. E aí, meu amigo, a nota de quem tem menos de 18 anos (hoje, 7,7) é menor do que a de quem tem de 18 – 29 (7,0) e menor ainda do que de quem tem de 30 – 44 (6,7). Com isso o 7,1 do IMDB para uma garota de 16 anos (a nota média desse público é de 8,3 para Esquadrão…) será abaixo do que ela achou e acima da média dos caras que mais votam por lá (6,2).

Além disso, ainda tem o detalhe que boa parte dessa turma vota com a ideia de “ah, é só um filme de herói, não precisa ser inteligente”, esquecendo que já tivemos ótimos filmes de herói, bem aceitos pelo público e pela crítica, como Homem Aranha 2, X-men 2, X-men: Dias de um futuro Esquecido, Homem de Ferro, V de Vingança e, claro, The Dark Knight.

O papel da crítica para a sociedade

Por fim, a parte mais legal a respeito da crítica (e que faz dela algo além de “apenas a opinião de outra pessoa”): o seu papel na sociedade.

Para Godfrey Cheshire, crítico do The New York Times, a crítica tem o poder de aumentar a conversa entre quem gosta de cinema (ou qualquer outro tipo de arte), fazendo com que as produções e as pessoas ganhem mais profundidade, afinal, cada espectador pode enxergar um detalhe que outro não viu a respeito de uma obra.

Em um post do crítico Pablo Villaça – que muita gente parece que ama odiar – ele cita uma ideia interessantíssima que o crítico Jim Emerson tem sobre o papel da sua profissão na sociedade: “A Crítica é mais do que a afirmação de um gosto pessoal. (…) Filmes são experiências emocionais (entre outras coisas) e as pessoas respondem a eles emocionalmente. Espera-se dos críticos, porém, que mergulhem mais fundo, que analisem, expliquem e interpretem.

Ou seja: o pensar crítico, no final das contas, tem a ver com a nossa capacidade de analisar o que nos foi dado. De entender porque algo dá certo ou não. Porque algo é bom ou não. E essa visão, quando levada para qualquer ponto da sua vida, não tem como fazer de você uma pessoa pior, pelo contrário. Por isso o mundo precisa ter mais críticos e menos fanboys da Marvel ou DC. Mais pessoas interessadas em compreender e menos pessoas  interessadas na polêmica, na luz dos holofotes da timeline do Facebook.

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