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Crítica: Na estrada (On the Road)

Publicado no final da década de 50, On the Road foi um dos livros mais icônicos para o movimento da contracultura nos Estados Unidos. Repleto de personagens jovens, com a sexualidade mega aflorada e totalmente contrários aos padrões sociais e políticos da época, a obra de Jack Kerouac serviu como bíblia para uma turma que mais tarde viria a ser conhecida como “geração paz e amor”.

Agora, sob a direção de Walter Salles (Central do Brasil), acostumado a tratar as estradas como personagens centrais em seus filmes, o texto de Kerouac ganha vida nos cinemas.

Novamente ao lado do diretor de fotografia Eric Gautier (Na natureza selvagem), com quem Salles trabalhou em Diários de motocicleta, o brasileiro torna a nos apresentar o lado mais poético do asfalto. Repleto de paisagens naturalmente lindas e enaltecidas por ângulos que desmerecem o uso de óculos 3D para que saltem aos olhos, Na estrada é um verdadeiro e intenso chamado para o desconhecido.

Crítica: Na estrada (On the Road)

Sam Riley seguindo os passos de Kerouac pela estrada

Tendo inicio em um dos pontos principais do livro de Kerouac, o longa narra as viagens que Sal Paradise (alter ego do autor, interpretado aqui por Sam Riley) fez através dos Estados Unidos e México ao lado de Dean Moriarty (Garret Hedlund) e sua namorada, a ninfa e sexy Marylou (milagrosamente bem interpretada por Kristen Stewart). Tomado por um impulso incontrolável e por uma rebeldia ao mesmo tempo encantadora e autodestrutiva, Dean ganha com o filme um rosto a ser imaginado, juntamente com algumas camadas inexistentes no original impresso.

Seguindo por esta viagem completamente hedonista, conhecemos outros personagens, como Carlo Marx (Tom Sturridge), um amigo gay de Dean todo trabalhado na melancolia de nunca poder ter o cara como amante, a loirinha e “Helena de Troia com cérebro fodido” Camille (muito bem interpretada por Kirsten Dunst), único pé na realidade de toda essa turma, que mais tarde acaba se tornando uma das mulheres de Dean, além de vários outros coadjuvantes bastante importantes (como os interpretados pelos atores Viggo Mortensen, Alice Braga, Terrence Howard e o sempre competente Steve Buscemi).

Como se fosse uma sombra de toda a loucura, Sal é quem leva o espectador para dentro deste mundo. Para isso, Sam Riley usa de uma interpretação contida, deixando para Garret e Kristen o peso de sustentar as situações vividas e criadas pelo autor. E para ajudar no transporte para dentro daquela realidade, Walter Salles não poupa a quantidade de nudez, putaria, viagens lisérgicas e drogas que o roteiro pede. Orgias, boquetes dentro de carros em movimento, festas blueseiras dentro de inferninhos apertados com o som e o álcool no talo e toda a descrição da época é mantida no longa. Isso tudo, junto com a eficiente direção de arte, regada ao som do velho jazz de raiz norte-americano, potencializa a nossa crença daqueles acontecimentos.

Crítica: Na estrada (On the Road)

Marylou se acabando no blues

Se existe um problema grande em Na estrada, está na montagem final, que parece ter sido zipada para fazer caber dentro de um formato minimamente comercial. Ainda que com momentos inspirados de edição (como a câmera focando a máquina de escrever de Sal e partindo para um plano da estrada), o filme tem introduções de personagens às vezes pouco explicadas (como a de Ed Dunkel) e passagens de tempo que acabam não fazendo sentido lógico (as vezes está com um sol a pino e no outro frame já está nevando).

Para os fãs do livro algumas partes também podem irritar por conta da adaptação. No filme, ao contrário do original, por exemplo, Sal conhece o companheiro após o funeral do pai e não da separação da ex-mulher, além de insistirem em dar um motivo para a aparente loucura de Dean (seria a falta de um pai ou de uma família?).

Mantendo o padrão de qualidade dos seus filmes anteriores, Walter Salles volta a encantar com mais esta história passada por rodovias e cidades de beira de estrada. E para aqueles que sempre pensam em como seria ter vivido naquela época, aqui é uma boa porta de entrada.

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