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Crítica: Intocáveis

Ah essa geraçãozinha Coca-Cola mal acostumada. Hunf! Vê se pode: agora estão querendo até que nossos dramas, nossos chorosos e angustiantes dramas, sejam empacotados no mesmo saco para viagem dos feel good movies. Afinal, ninguém mais pode sofrer neste mundinho de 140 caracteres, não é mesmo?

Pois sabe quem descobriu isso também? Os franceses. Sim, Intocáveis (Intouchables), novo filme de Olivier Nakache e Eric Toledano, feito lá no berço do cinema, bebe exatamente deste estilo enlatado, tipicamente norte-americano e, mesmo não fazendo feio, deixa uma pergunta no final para aqueles que enxergam um pouco a mais do que apenas duas horas de escapismo.

A história, baseada em fatos reais, fala sobre as mudanças que acontecem na vida de Philippe (François Cluzet, ou melhor, o Dustin Hoffman francês. Sério.), um multimilionário tetraplégico que em busca de um novo auxiliar, resolve contratar um tal de Driss, um ex-detento senegalês de temperamento explosivo que mora nos subúrbios de Paris.

Bom, parece clichê, e é!

Philippe e Driss quebrando tudo

Toy Story, Máquina mortífera, 48 horas, Thelma & Louise… duplas formadas por pessoas completamente opostas e que descobrem o lado bom da vida nas diferenças do parceiro é o que mais tem por aí. E dentro do ambiente hospital também. Taí Antes de Partir e o excelente 50% que não me deixam mentir. Mas, graças à escolha do elenco principal, feita por Gigi Akoka (Babel), Intocáveis consegue se segurar, mesmo tendo uma trama mais do que batida.

Na vida real, Driss não é tão visualmente distante de seu amigo como no filme. Para interpretar seu papel, e destoar ainda mais do protagonista, foi escalado o ator Omar Sy, um sujeito de porte atlético, do tipo 100 metros rasos com obstáculos. Com uma atuação muito focada em olhares, Sy também anda em cena de maneira forte, maciça, aumentando ainda mais a diferença para com o personagem de Cluzet. E é interessante perceber que essa postura vai se moldando ao longo da projeção, na medida em que Driss começa a ganhar movimentos cada vez mais leves para demostrar a sua mudança de temperamento.

Enxergando na óbvia disparidade entre ele e seu auxiliar uma forma mais honesta de ser tratado, Philippe é um protagonista que, mesmo sendo muito carismático, sofre pela falta de conflitos da trama. Com uma atuação totalmente facial, Cluzet insere uma vibe tão pra cima no protagonista, que depois de um tempo ela começa a parecer bastante irreal ou forçada.

Omar Sy colocando todo o elenco para dançar em uma cena chave do filme

Escrito pelos próprios diretores, o roteiro de Intocáveis acerta bastante a mão na elaboração dos divertidíssimos diálogos do filme, porém, no quesito construção de personagens ele peca significativamente. A motivação e a transformação de Driss ficam bem mais críveis e interessantes do que a de Philippe, que beira o conformismo, já que muitas de suas atitudes para apreciar mais a vida, poderiam ter sido feitas sem precisar de uma pessoa como seu companheiro.

Esta impressão de condicionamento que o filme produz é destacada pela escolha que os diretores tiveram ao rodar o longa durante o nevado inverno Europeu. É cientificamente comprovado que o frio aproxima mais as pessoas, e não por acaso, Olivier e Eric acabam por mostrar por diversas vezes o personagem de Omar Sy tentando se proteger das baixas temperaturas quando está sozinho e aquecido e mais leve (por usar uma quantidade menor de roupas) quando está na presença de Philippe. Ou seja: Ele só estaria livre das dificuldades quando ao lado do amigo.

Mas, se o roteiro e alguns pontos da direção forçam a barra com esse jeitão meio Yin-Yang-fast-food, a trilha sonora acaba ganhando pontos com a dualidade. As faixas compostas por Ludovico Einaudi são inspiradíssimas, muito bem trabalhadas e bastante sóbrias, contrapondo com as músicas inseridas ao longo da trama para pontuar os momentos mais pra cima, como a deliciosa Feeling Good de Nina Simone e You’re Goin’ Miss Your Candyman de Terry Callier.

Com o objetivo de fazer os espectadores saírem da sala de projeção com uma verdadeira festa de endorfina no organismo, Intocáveis é o tipo de filme que agrada tanto à leitores de auto-ajuda quanto aos mais descolados por conta do seu humor politicamente incorreto, afiado e bem dosado. Poderia até ter um pouco mais de sobriedade, mas não chega a atrapalhar. Só espero que esta tendência de conformidade e de espírito “uhuu” não se espalhe demais, porque afinal, precisamos ter o pé no chão quanto às dificuldades. E nem tudo é festa, meu amigo.

O filme estréia no Brasil no final de Agosto, mas quem quiser, pode conferir antes no Festival Varilux de Cinema Francês, onde ele faz parte da grade.

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